Padroeiro Senhor Bom Jesus

EcceHomo_pequenoConforme uma determinação da Igreja, todas as festas particulares de Nosso Senhor, que não tem dia próprio assinalado, devem ser celebradas no dia 06 de agosto. Assim se explica a celebração, no Brasil, da Festa do Senhor Bom Jesus no dia da Transfiguração, dia 06 de agosto.

A festa da Transfiguração do senhor tem por base os relatos substancialmente idênticos dos três sinóticos (Mt 17,1-8: Mc. 9,28b-36), segundo os quais Jesus subiu com Pedro, Tiago e João a um alto monte e aí se transfigurou perante eles, e Moisés e Elias lhes apareceram, conversando com Jesus. Deu-se então uma teofania, quando uma saída da nuvem disse: “Este é meu filho amado, em quem me compraz, ouvi-O” (Mt 17,5); enquanto isso uma pomba pairava sobre o Cristo. Este acontecimento tornou-se tema da celebração de uma liturgia.

Esta festa da Transfiguração, já foi celebrada no século V em vários lugares do Oriente. Conforme uma tradição bem antiga, o milagre da Transfiguração no monte Tabor teria acontecido quarenta dias antes da crucificação de Jesus. Mas para não ter uma festa de alegria no tempo da quaresma, ela foi colocada dias antes da Festa da Exaltação da Santa Cruz, celebrada no dia 14 de setembro, solenidade que lembra o drama de Sexta-feira Santa. (De 06 de agosto a 14 de setembro passam quarenta dias: dos quais vinte e seis em agosto e quatorze em setembro). O Papa Calixto II (1455 – 1458) introduziu a festa da Transfiguração em toda a Igreja, em agradecimento pela vitória dos Cristãos sobre os Turcos, perto de Belgrado em 1457. O milagre do Tabor tinha como finalidade de sua morte na cruz e também queria dar a eles um antegozo da gloriosa ressurreição no dia da Páscoa.

Há quatro considerações explicando as razões da celebração da Festa do Senhor Bom Jesus no dia 06 de agosto, enumeradas no Livro “Bom Jesus de Nazaré” de Manoel Scheimann da Silva:

Primeira – dia 06 de agosto corresponde no Hemisfério Norte à “Páscoa” do verão e a igreja oriental nela celebra a grande festa da Transfiguração do Senhor, constituindo-se uma das mais importantes celebrações do calendário oriental. Esta festa foi introduzida na igreja ocidental apenas em 1456, pelo Papa Calisto II, em ação de graças pela vitória sobre o Islã, em Lepanto, mas sem o caráter da festa oriental do cristo homem que se manifesta na Luz de sua divindade.

Segunda – Em Portugal, especialmente em Braga (Igreja-mãe do catolicismo português) e em Matosinhos são veneradas imagens do Bom Jesus, mas o crucificado. Como o catolicismo brasileiro, através do que poderíamos denominar de teologia da paixão, corresponde em certa medida ao português-açoriano medieval, a devoção foi transplantada para o Brasil e comemorada em diversas igrejas dedicadas ao Bom Jesus. Oficialmente, na liturgia romana, o dia 06 de agosto é dedicado à festa da Transfiguração do Senhor; mas, no Brasil, o Bom Jesus é festejado nesse dia no Santuário do Bom Jesus da Lapa, Baia e nos santuários históricos do Estado de São Paulo: Iguape (1647), Tremembé (1663), Bom Jesus do Perdões (1705) e Pirapora do Bom Jesus (1725), bem como nas Igrejas que derivam destes santuários.

Ressaltamos também que uma das mais importantes festividades religiosas dos Açores é realizada na ilha do Pico, na freguesia de São Mateus, Conselho da Madalena, dedicada ao Bom Jesus, tendo como ponto alto o “Ecce Homo“ e essa festa é realizada anualmente a 06 de agosto. Em Mazedo-Monção, em Portugal, igualmente em 06 de agosto anualmente se celebra a festa do Divino Salvador. (Há quem afirme que tanto na Freguesia de São Mateus, nos Açores; quanto em Mazedo-Monção, em Portugal; a data de 06 de agosto é celebrada anualmente devido ao Senhor Bom Jesus de Iguape, no Brasil; de onde teria se originado. Mas é preciso empreender novas pesquisas históricas).

Mas o 06 de agosto não é unanimidade: em alguns lugares celebra-se o dia do Bom Jesus em 14 de setembro (santuário Bom Jesus do Livramento, em Liberdade, MG), que é a festa da Exaltação da Santa Cruz, em outros lugares do Brasil celebram-no em 06 de janeiro (Epifania do Senhor), ou 01 de janeiro, que, antigamente, era dedicado ao Santo Nome de Jesus. (Em São José, SC celebrava-se até pouco tempo a festado Senhor do Bom Fim no dia 01 de janeiro).

A origem de devoção no Brasil é quase sempre a mesma: ou é uma imagem que não quer viajar, ou localizada num rio, ou uma imagem levada por algum ermitão, etc. e, consequentemente os peregrinos chegam e a veneram, atribuem milagres, edificam uma capela, uma igreja e daí as grandes romarias se tornam constantes. A tradição brasileira venera o Bom Jesus tipo Iguape (Cristo “Ecce Homo”); da Cana Verde (Cristo amarrado à coluna no suplício), festejado em 06 de agosto; dos Passos (carregando a cruz), festejado na quaresma; o do bom Fim (cristo crucificado e morto, por isso, bom fim), festejado em 31 de dezembro e 01 de janeiro. Mas há variantes: Bom Jesus da Pedra Fria (ou da Paciência), sentado; além de outras menos conhecidas: Bom Jesus do Horto, Bom Jesus dos Aflitos (ou dos pobres aflitos, com uma pequena variação no manto, que caiu de um ombro), Bom Jesus da Boa Morte, da Boa Sentença, da Prisão, etc.

Terceira – Nos parece ser equivocado fazer a ligação entre as festas da Transfiguração do Senhor, introduzida na igreja ocidental apenas em 1456 e a do Bom Jesus, porque esta, naquela data, segundo nos consta, ainda não tinha se fixado em Portugal e muito menos no Brasil. Mas, merece destaque que a Transfiguração evoca os dois aspectos do ministério pascal: a Paixão-Morte de Cristo e a sua glória pela ressurreição. Dessa forma, é possível fazer uma conexão entre os citados textos e Mt 16, 21-28; Mc 8,31-34; Lc 9,22-25, onde Jesus se refere à sua rejeição e morte. A manifestação gloriosa, nesse caso, seria como uma forma convincente de confortar antecipadamente os discípulos que iam ser testemunhas da agonia no Getsêmani (Mt 26,37; Mc 14,33; Lc 9,31) acrescenta que na Transfiguração Moisés e Elias também conversavam com o Mestre, sobre a sua morte que teria lugar em Jerusalém. Daí, provavelmente estabeleceu-se uma ligação entre a figura gloriosa e padecente de Cristo, com o título de “Bom Jesus”, sob três formas possíveis: amarrado à coluna da flagelação, coroado de espinhos e apresentado por Pilatos ao povo (Ecce Homo – Eis o Homem), ou pregado na cruz.

Quarta – Em Portugal e no Brasil, as festas dedicadas ao Bom Jesus tendem a corresponder a um ciclo litúrgico-popular, que termina sempre em 15 de setembro, com a festa de Nossa Senhora das Dores esse presumível ciclo é um dos mais significativos do catolicismo popular brasileiro (Norte, Nordeste, Sudeste, Oeste), podendo ser superior inclusive ao ciclo quaresmal e pascal. Talvez a escolha da data em Palhoça, SC onde se venera a imagem do Senhor Bom Jesus de Nazaré – representando o Cristo mestre e pregador -, seja influência de Iguape, litoral paulista, que é santuário brasileiro mais antigo dedicado ao Bom Jesus. Lá, quando a imagem foi encontrada, em 02 de novembro de 1647, colocaram-na numa igreja dedicada a Nossa Senhora das Neves, cuja festa se celebra a 05 de agosto. Ainda hoje, a padroeira da basílica, onde está a imagem do Bom Jesus de Iguape, é Nossa Senhora das Neves. Talvez tenha sido natural celebrar o Bom Jesus (que logo ficou mais famoso que a padroeira) a festa de Cristo que segue o dia dela, a Transfiguração, 06 de agosto. Tudo indica que os demais santuários foram influenciados por Iguape. Com efeito, todos os quatro santuários históricos, localizados no Estado de São Paulo, celebram Nossa Senhora no dia 05 de agosto (normalmente com o título “Nossa Senhora das Dores”; em Tremembé, Nossa Senhora da Compaixão) e, no dia seguinte, 06 de agosto, Bom Jesus.

 

MENSAGEM DA FESTA

Deus é bom! E aplicar o adjetivo “bom” a Cristo nada mais é do que reconhecê-lo como imagem do Deus invisível, isto é, atestar nossa fé na divindade de Jesus, Filho Unigênito do Pai. O próprio Jesus nos desafia, como aquele homem rico do Evangelho, a perceber que Ele é Deus; e, se Deus é bom, o Cristo é a bondade do Pai entre nós, o BOM Jesus: “Só Deus é bom, e ninguém mais” (Lc 18,19). A bondade divina revelada em Jesus, o Senhor, enviado pelo Pai para dar a vida em benefício de nossa humanidade pecadora, levou o povo de Deus, em sua sábia piedade, a chamá-lo de SENHOR BOM JESUS.

Surge, então, a devoção popular ao Cristo da Paixão, Servo Sofredor, com grande ressonância em Portugal, na Espanha, na Itália e, mais tarde, a partir do período colonial, na América Latina. Daí decorrem inúmeros “títulos” acrescidos à invocação “Senhor Bom Jesus”, recordando os momentos de seu martírio: a agonia (Senhor Bom Jesus do horto, das oliveiras); a flagelação (da coluna, da pedra fria, da paciência); a sua apresentação por Pilatos ao povo com a expressão latina “Ecce homo” – “Eis o homem!” – (da cana verde, do livramento, dos aflitos, da boa sentença, da prisão, Santo Cristo dos milagres); o caminho para o Calvário (dos Passos); a crucificação (do bonfim, da lapa, de matosinhos, da boa morte, do descimento, da pobreza, da agonia, dos remédios, dos montes) e, finalmente, o sepultamento (Senhor Morto). Evidentemente, todas as representações iconográficas (imagens) desses “títulos” do Senhor Bom Jesus apresentam suas particularidades e aludem ao episódio bíblico que retratam ou aos atributos e adornos que o Cristo traz ou com os quais é revestido (o manto de cor púrpura, a cana e a coroa de espinhos, por exemplo). A invocação, ainda, pode conter o nome dos lugares onde a devoção se desenvolveu: Cangaíba, Brás, Jd. das Oliveiras, Guarulhos, Pirapora, Iguape, Tremembé, Perdões, Itu, Arujá, Mairiporã, Paranapiacaba, Lapa, Bonfim, Matosinhos, Açores, Braga, Buga etc. Fogem a essas características que evocam o drama da Sexta-feira Santa o “Senhor Bom Jesus de Nazaré” e algumas imagens do “Senhor Bom Jesus dos Navegantes”.

As devoções e as imagens do Cristo sofredor, tão evidentes no período quaresmal e nas solenidades da Semana Santa, ganham visibilidade também fora desse tempo, quando se dão as Festas em honra do Senhor Bom Jesus, que, embora cultuem a Paixão do Salvador, estão desprovidas daquele espírito de recolhimento e luto próprio desde as Cinzas até a Sexta-feira Santa. Pelo contrário, tais Festas revestem-se de um efusivo sentimento de alegria popular (por vezes até se distanciando do religioso e “esbarrando” naquilo que é profano durante as comemorações de rua).

Com raras exceções, as Festas do Senhor Bom Jesus, tão tradicionais e cheias de lendas, “causos” e pagamento de promessas, se dão aos 06 de agosto ou aos 14 de setembro. E há razões teológicas para isso, além, é claro, de uma série de motivações históricas. 06 de agosto é a Festa Litúrgica da “Transfiguração do Senhor”. Ora, a Transfiguração de Cristo já prefigurava a sua Ressurreição, mas era necessário que Ele, primeiramente, passasse pela paixão e morte que teriam lugar em Jerusalém, tal como conversavam Elias e Moisés com o Mestre no Monte Tabor. Isso nos permite estabelecer uma correlação entre o Cristo glorioso (transfigurado) e o Cristo padecente (desfigurado) – o “Senhor Bom Jesus”.

Já em 14 de setembro, é celebrada a Festa Litúrgica da Exaltação da Santa Cruz. Por razões óbvias, a essência dessa comemoração da Liturgia vai ao encontro do culto popular ao Cristo crucificado, o “Senhor Bom Jesus”. Ademais, o Senhor Bom Jesus dos Passos e o Senhor Morto são reverenciados, mormente, durante as procissões quaresmais ou da Semana Santa.

Acorramos, pois, peregrinos e penitentes, em romarias ou solitariamente, às catedrais, às basílicas, aos santuários, às matrizes, às capelas e aos altares dedicados ao Senhor Bom Jesus, por vezes erigidos em regiões altaneiras, mais próximas do céu e convidativas à oração! E diante das suas venerandas imagens, comumente milagrosas (como em Pirapora, Iguape, Tremembé, Perdões ou Monte Alegre do Sul), encontremos, apesar de suas feições tão queixosas e agonizantes, a bondade de Deus feito homem, que, tendo passado pela cruz nesta vida, conforta-nos, acolhe eternamente e dá esperança, a nós que também padecemos neste mundo, recordando-nos que, com Ele, chegaremos à Ressurreição! Eis aí fascínio que o Senhor Bom Jesus exerce sobre seu povo mais oprimido, todavia cheio da alegria do Evangelho!