A força do perdão

Toda vez que ouço o trecho do Evangelho no qual Jesus diz que devemos perdoar setenta vezes sete fico pensando no que significa perdoar sempre. É algo muito mais profundo do que simplesmente perdoar. Dizer a um cego de nascença como é o vermelho é muito difícil. Ele nunca teve uma experiência de cores. Podemos fazer comparações com coisas que ele já tocou e sentiu, mas nunca poderá ter uma ideia exata da cor vermelha até que a experimente. Penso que assim é com o perdão. Posso ler e ouvir muitas coisas bonitas sobre o perdão, testemunhos comoventes, mas, enquanto eu não sentir na minha pele o que é perdoar, e perdoar de todo o coração, não saberei o que ele significa.

Ao contemplarmos, com atenta sensibilidade, as palavras e gestos de Jesus, chegamos à conclusão que o perdão era para Ele o seu lugar, o seu habitat, pois Ele mesmo disse: “A boca fala da abundância do coração e pelos frutos se conhece a árvore’”. Um homem “todo amor” só podia espalhar perdão ao seu redor. Sem o amor é impossível perdoar.

Ao morrer na cruz perdoando seus acusadores, Jesus deu a eles uma lição de amor e de misericórdia e nos mostrou o segredo do perdão. “Eles não sabem o que fazem”. Estas palavras manifestam uma grande compaixão do Mestre pelos que lhe queriam tirar a vida. Não, eles não sabem o que fazem, pois se soubessem não o crucificariam. Também quem nos ofende nos magoa, nos faz algum mal não sabe o que faz. Não percebe toda a extensão e consequência de seu mal. Mas, afinal, o que é perdoar? Por que perdoar?

A palavra “perdão” significa, segundo o Dicionário Aurélio, remissão de pena, desculpa indulto. Em outras palavras, é não querer punir o culpado, é a libertação do prisioneiro que está preso no próprio erro, através de um gesto não comum. “Errar é humano, perdoar é divino”, diz um ditado popular. Quem perdoa não fica diminuído, pelo contrário, cresce porque é capaz de renunciar a si mesmo, àquilo que parece ser seu direito, em favor de alguém. Mas, ao contrário das aparências, o grande favorecido é quem perdoou, porque quem perdoa está conquistando a própria paz interior.

Se fizéssemos uma análise sumária da situação mundial, poderíamos dizer que vivemos numa contínua tensão bélica. Às vezes fico pensando: qual será a próxima vítima das grandes organizações de traficantes e terroristas? Ou até dos que fazem o mal fortuitamente, porque aparece ocasião para isso, nas pequenas e grandes cidades? Bastaria o perdão para que o mal desaparecesse do mundo e, sem o mal, viveríamos num paraíso terreno, como nos apresenta Gênesis (Gn 1).

Irmã Maria Elizabeth, OCD

Fonte: Opinião e Notícia – 11/10/2013
Arquidiocese de Belo Horizonte/MG